Sobre Catarina

Catherine Doherty“Sou uma mulher apaixonada por Deus. Os homens me consideram alguém esquisita ou tola. Não sabem que eu sou uma canção, uma bailarina, uma mulher apaixonada por Deus.”

Parece desafiar imaginação, a vida de Catarina de Hueck Doherty — mais conhecida no Brasil como ‘a baronesa’, desde a publicação de Apresento-lhes a baronesa, de Pe. Héber S. de Lima, s.j., há alguns anos.

Nascida na Rússia em 1896, filha da nobreza, ela viajou por toda a Rússia, Europa e Egito com seus pais antes mesmo de chegar à adolescência, aprendendo seis línguas no processo. Casou-se aos 15 anos, com o barão Boris de Hueck.

Viveu intensamente a Primeira Guerra Mundial, dela participando ativamente como enfermeira de frente avançada, apesar de contar apenas 18 anos, sem quase ter tido tempo de fazer sua "lua-de-mel" com o marido, um capitão e engenheiro do exército russo. Catarina foi condecorada com a Cruz de São Jorge, nunca antes concedida a uma mulher, por ter desempenhado uma missão heróica, para além dos seus deveres de enfermeira e para a qual se oferecera espontaneamente.

Com a revolução bolchevista de 1917, veio o tremendo terremoto social que sacudiu e transformou a Rússia. O sangue tingiu a neve. Sendo de família aristocrata, a jovem baronesa sabia o que a esperava... Da noite para o dia, sua vida luxuosa transformou-se numa de fugitiva procurada. Boris e Catarina resolveram deixar a Rússia, através da Finlândia, onde possuíam uma pequena fazenda. A viagem teve lances cinematográficos e trágicos. Quando chegaram na fazenda, o que eles encontraram foi, não refúgio, mas a presença dos comunistas que os trancaram dentro da própria casa, deixando-os para morrer de fome.

Depois de inúmeras peripécias e sofrimentos, o jovem casal conseguiu fugir para a Inglaterra. Catarina viveu nesse país algum tempo, aproveitando a estada para aperfeiçoar o inglês, que será sua segunda língua — na qual, anos mais tarde, escreverá todos os seus livros de espiritualidade. Antes de fugir da Rússia, ela teve a imensa tristeza de saber que vários membros de sua parentela tinham sido assassinados pela revolução.

Viajou para o Canadá em 1921, grávida do seu primeiro filho, Jorge, que nasceu em Toronto nesse mesmo ano. Seguiram-se anos difíceis, durante os quais a baronesa virou empregada doméstica, balconista, garçonete...

Nesta vida de luta e de trabalho, entrou em contato com o povo norte-americano e fez suas primeiras amizades, sobretudo com a gente simples e trabalhadeira. A luta pela vida levou Catarina a Nova Iorque, na esperança de conseguir um pouco mais de dinheiro para sustentar o filho e o marido. Os poucos dólares que conseguia na metrópole americana iam para Toronto, porque, além do marido e do filho, ela tinha de pagar uma babá russa, também refugiada de guerra. Sofreu muitas necessidades e aflições.

Depois de ter chegado às bordas do suicídio, o vento mudou e ela foi "descoberta", quando trabalhava de balconista numa loja de Nova Iorque. Convidam-na a fazer palestras sobre a revolução russa e suas experiências pessoais. Em pouco tempo, já estava percorrendo os Estados Unidos de costa a costa, sendo muito bem remunerada, porque falava com verdadeira maestria, apesar do carregado acento russo que nunca perdeu, até o fim da vida. Mas isso era bom: tornava-a autenticamente russa e as palestras ficavam mais atraentes. Depois de alguns meses, torna-se uma sócia dessa organização de conferencistas ambulantes. Já estava novamente rica!

Mas os sofrimentos continuavam, em particular no relacionamento com Boris. Separou-se do marido e, no fim das contas, seu casamento foi anulado pela Igreja. Em Nova Iorque agora Catarina tinha um amplo apartamento, muitos livros, uma babá para seu filho, um luxuoso carrão e amigos importantes e ricos.

Foi nesse ambiente que começou a sentir-se inquieta e a perguntar a si mesma se Deus a tinha salvo da morte, na Rússia, para vê-la transformar-se numa burguesa americana. Passou a ser perseguida, dia e noite, pelas palavras de Cristo: "Vende o que tens, dá-o aos pobres e, depois, vem e segue-me!". Isto lhe soava como divagações de uma louca e ela procurou fechar as portas do coração a estes apelos que lhe chegavam, para usar suas próprias palavras, como os balbucios desconexos de um moribundo. Mas as vozes persistiam. Na tentativa de apaziguar sua consciência, Catarina procurou a orientação de alguns sacerdotes que foram unânimes em dizer-lhe que aquilo era ilusão: a vontade de Deus para ela era a educação do seu filho.

Após vários anos de angústia, foi ter com o Arcebispo de Toronto, Dom Neil McNeil. Este, depois de ouvi-la, declarou-lhe que ela tinha, realmente, uma vocação vinda de Deus. Recomendou-lhe, entretanto, que esperasse e rezasse ainda um ano e, depois, se a vocação persistisse, ele lhe daria seu apoio e sua bênção.

Exatamente um ano mais tarde, ela vendeu tudo o que tinha, fazendo apenas provisão para o futuro do seu filho com um depósito bancário. Em seguida, ela e a criança foram viver nas favelas de Toronto, durante os terríveis anos da depressão americana.

Em 1925 o Papa Pio XI tinha lançado seu primeiro apelo à Ação Católica, conclamando os leigos a participarem do apostolado.

Cinco anos mais tarde, 1930, em Toronto, Catarina de Hueck tornou-se uma das primeiras pessoas a responder ao apelo do Papa.

Catarina foi simplesmente viver com os pobres a fim de amá-los e servi-los, diluindo-se no meio deles, trabalhando, sofrendo e rezando com eles. Logo apareceram imitadoras e imitadores. Rapazes e moças procuraram-na como hoje procuram as comunidades fundadas por Madre Teresa de Calcutá. Havia na fé e no amor de Catarina uma chama tão intensa que acendia os corações de todos os que a conheciam.

Seu desejo pessoal visava a um apostolado individual, mas as circunstâncias, eventualmente, levaram seus esforços a um grupo de leigos que trabalhavam num movimento denominado "Casa da Amizade". Este movimento cresceu e evoluiu.

Sua coragem e franqueza, um tanto ousada, escandalizaram a muitos que não tinham a mesma fé em Jesus Cristo e o mesmo amor pelos pobres. Foi tachada de espiã comunista. A calúnia e a incompreensão expulsaram-na de Toronto. Assim morreu a primeira das "Casas da Amizade".

Pouco tempo após esse fracasso provocado pela maldade dos homens, Pe. J. LaFarge, s.j., conseguiu que Catarina fosse convidada a trabalhar no bairro negro de Harlem, Nova Iorque. Aí em 1938 ela começou novamente a sua "Casa da Amizade", em pobreza total, como da primeira vez. Aí também vieram jovens para participar de sua experiência de apostolado leigo.

Fervilhava, então, em Nova Iorque, como em grande parte da América, o problema racial. A "Casa da Amizade" bem cedo se tornou conhecida na Igreja americana se bem que, também aí, nem todos pensassem do mesmo modo a seu respeito.

Voltou-se inteiramente para os pobres. Trabalhou com os negros no Harlem e conseguiu o respeito de uma raça oprimida. Sofreu horrores por parte dos brancos racistas, suportou a agressão verbal e física de pessoas cristãs que a chamavam de ‘namorada de negro’. Entre esses que assim a tratavam havia padres e freiras. Entretanto, Catarina não teve mágoa alguma contra ninguém; pelo contrário, teve sempre um profundo amor por todos os sacerdotes. Sempre foram seus prediletos na vinha do Senhor.

Em meio a tudo isso, seu sentido de Igreja era fabuloso: sempre encontrava tempo para falar de Deus a cada pessoa que encontrava, a soldados desiludidos, a prostitutas e a empregadinhas que eram exploradas, como ela própria tinha sido, no seu trabalho. Descreveu tudo isso numas cartas que começou a mandar a seu Bispo de Nova Iorque e que, mais tarde, serão publicadas com o título de Dear Bishop (Cartas a meu bispo).

Catarina lutou muito para tirar a doutrina social católica da letra morta dos livros e levá-la ao coração das pessoas. Nesse trabalho teve a amizade e o auxílio de uma grande convertida: Dorothy Day, cuja causo de beatificação já está em processo. Thomas Merton foi outro que admirou a beleza de sua obra e viu nela a ação do Espírito Santo. Porém, muitas pessoas preferia fixar-se na franqueza um pouco rústica de Catarina e no fato de ser ela russa! E a Rússia era sinônimo de comunismo ateu.

Apesar de ter sido a fundadora dessas casas que logo se espalharam pelos Estados Unidos, Catarina teve o grande dissabor de ver-se rejeitada de novo, esta vez pela equipe que ela mesma tinha formado. Queriam dirigir a obra em outros moldes que não os dela. Afastou-se, então, da instituição, com o coração sangrando.

Em 1943, casou-se, em segundas núpcias, com o jornalista americano Eddie Doherty e, quatro anos mais tarde, eles partiram para o Canadá, onde chegaram ao vilarejo de Combermere na província de Ontário, à beira dum belo rio, onde lançaram os fundamentos da grande obra de Catarina: Madonna House, hoje uma realidade de apostolado leigo, oficialmente aprovada e abençoada pela Igreja. Os membros, leigas, leigos e sacerdotes, vivem em comunidade e fazem os três votos religiosos de pobreza, castidade e obediência; procuram viver o Evangelho numa vida de oração, hospitalidade e trabalho, partilhando o fruto dessa vida com os outros que são acolhidos na comunidade como irmãos. A ênfase da fundação é posta na vida de amor ao próximo, de oração e no trabalho, tanto para a própria sustentação como em benefício dos outros, sobretudo dos pobres. 

Diz Catarina: “Madonna House é um lugar onde as pessoas entram em contato com Deus. A essência de nossa vocação é escondida, humilde e gloriosa.   É amar a Deus apaixonadamente, amando ao próximo.  Nossas casas devem ser moradas do amor e serviço aos outros”.

Hoje a comunidade de Madonna House conta com mais de 200 membros, incluindo 14 Padres, e tem 15 missões, em diversas partes do mundo. A comunidade em Cómbermere tornou-se sede de uma comunidade eclesial internacional. Recebe centenas de visitantes cada ano que aproveitam o acolhimento e convivência para aprofundar suas vidas em Cristo. Serve também como um centro de treinamento para quem deseja tornar-se membro da comunidade. Outros centros de treinamento estão situados nas casas de Gana na África e Bélgica na Europa. O Apostolado é sustentado por doações de todo tipo; Catarina insistia que a comunidade pedisse por todas as suas necessidades, em imitação de Jesus Cristo, em solidariedade com os pobres, e para dar aos outros a oportunidade de exercer a caridade.

Foi o papa Pio XII que sugeriu a Catarina que os membros de Madonna House vivessem de acordo com os conselhos evangélicos. A partir daí, em 1955, ela e seu marido, Eddie, passaram a viver em aposentos separados, nos terrenos de Madonna House. Em 1969 Eddie foi ordenado sacerdote no rito Melquita (católica oriental) que permite o matrimônio para os clérigos.  Ele faleceu em 1975. 

Um grande novidade que Catarina trouxe para esse recanto do Canadá foi a introdução do retiro no estilo cristão russo, em que a pessoa se recolhe a uma cabana ou um quarto reservado por isso e aí passa um, dois ou mais dias, em solidão total, toda entregue à meditação baseada na leitura da Bíblia. São esses os famosos poustinias que se tornaram conhecidos no mundo inteiro através do seu livro Poustinia, traduzido em quinze línguas, inclusive em português, sob o título de Deserto vivo.

Somam mais de 35 os livros escritos por Catarina. Ela tem um estilo muito pessoal ao falar de Deus, um estilo "apaixonado" e apaixonante. Catarina infunde em seus escritos, sobre coisas divinas, uma intensidade e uma vibratilidade muito femininas, o que torna seus livros diferentes de muita coisa escrita sobre os mesmos assuntos.

É importante sublinhar, principalmente, que ela não escreve como algum "mestre de vida espiritual" que se especializasse em traçar regras e normas, mais ou menos frias, numa espécie de geometria da espiritualidade. Ela não escreveu livros: ela os viveu.

Catarina viveu grandes eventos históricos que marcaram o século XX: Primeira Guerra Mundial, Revolução Russa, Depressão Mundial, lutas contra os preconceitos e injustiças raciais. Também passou por fortes provações como: a experiência de ser uma refugiada, escândalo de ser uma divorciada, desafio de criar um filho sozinha e a rejeição por causa do Evangelho. Com tudo que ela passou, sua vida sempre refletiu uma realidade: seu apaixonado caso de amor com Deus. Era um caso de amor que a fazia considerar a Cruz como um leito nupcial, e a dor como um beijo de Cristo. Era um caso de amor no qual ela mergulhou de cabeça a cada dia, em cada momento, em todas as épocas do ano e em todas as épocas de sua vida.

Ela oferece inúmeros exemplos concretos de como trazer Cristo para a praça pública do mundo de hoje. Sua maneira de viver os ensinamentos de Cristo é pequenina e simples e humilde.  Catarina nos diz que a tarefa de cada cristão é encarnar o Evangelho todos os dias, não importa qual seja a nossa situação. A marca genial de sua espiritualidade é ser "portátil", todos podem levá-la para qualquer lugar e aplicá-la em todas as situações da vida. 

Toda a sua visão e vivência do evangelho, nos dias da infância e da adolescência, foram profundamente marcados pela espiritualidade russa. A liturgia da Igreja russa ortodoxa; as práticas religiosas com que seus pais pontilhavam seu dia-a-dia e o contato com a piedade do próprio povo russo do seu tempo, essa amálgama de pecadores, céticos e santos, tudo isso influenciou tremendamente a formação cristã de Catarina, carreando para seu coração e sua mente toda a fabulosa riqueza das tradições e símbolos espirituais do Cristianismo Oriental.

Ela se formou concebendo o mundo como visão transfigurada da Imagem de Deus. Desenvolveu a consciência da presença de Cristo ressuscitado, belo e glorioso, mas, ao mesmo tempo, humilhado no sofrimento dos pobres; a visão de uma Igreja toda imersa na unidade da Trindade e iluminada pelo seu brilho; sobretudo e mais que tudo pelo conhecimento da infinita ternura e misericórdia de Deus. Tudo isso plasmou Catarina, e agora, transborda em suas palavras e palpita em cada frase de seus livros.

Catarina faleceu no dia 14 de dezembro de 1985, aos oitenta e nove anos de idade e o processo de sua beatificação foi iniciado cinco anos mais tarde. Atualmente a Igreja a chama de ‘Serva de Deus’.

Writings Escritos de Catarina de Hueck Doherty em Português
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